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Odeon, de Ernesto Nazareth: Análise Musical Completa, Contexto Histórico e Estrutura Harmônica

Introdução Composta entre 1909 e 1910, Odeon não é apenas uma das obras mais célebres do repertório brasileiro: trata‑se de um verdadeiro marco na consolidação de uma linguagem musical urbana no Brasil do início do século XX. Escrita por Ernesto Nazareth (1863–1934), a peça foi dedicada ao Cinema Odeon, no Rio de Janeiro, local onde o compositor atuava como pianista na sala de espera. Nesse espaço híbrido — entre o concerto e a vida cotidiana — Nazareth elaborou uma estética singular, capaz de conciliar o rigor da tradição europeia com a pulsação rítmica das ruas cariocas. Odeon simboliza, de forma exemplar, a transição da música de salão europeia para uma escrita profundamente brasileira, marcada pela síncope, pela condução sofisticada de vozes e por um senso refinado de forma. É, portanto, uma obra-chave para compreender a gênese do choro e a formação de uma identidade musical nacional moderna. Ernesto Nazareth e o Tango Brasileiro Frequentemente chamado de “Chopin do Brasil”, Nazareth possuía sólida formação erudita e profunda admiração pela obra de Frédéric Chopin. No entanto, sua grande contribuição foi ter captado, como poucos, a alma musical das ruas do Rio de Janeiro. Embora muitas de suas obras dialoguem diretamente com o maxixe, Nazareth recusava esse termo — considerado vulgar à época — preferindo a designação Tango Brasileiro. Essa escolha não era meramente semântica: ela refletia um projeto estético. O tango brasileiro de Nazareth caracteriza‑se pela fusão entre: Nesse sentido, Nazareth foi um dos pilares estruturais do choro, gênero que ele ajudou a moldar não apenas pelo repertório, mas pelo estabelecimento de um padrão técnico, formal e harmônico que ainda hoje orienta músicos e compositores. A Importância e a Relevância de Odeon A relevância de Odeon transcende o universo do piano brasileiro. A obra ocupa posição central na construção da identidade musical do Brasil ao demonstrar que era possível criar uma música que não fosse nem estritamente erudita (à maneira europeia), nem puramente folclórica. Nazareth inaugura, aqui, uma música urbana sofisticada, tecnicamente exigente, mas profundamente enraizada na cultura popular. Essa síntese abriu caminho para gerações posteriores de compositores, como Heitor Villa‑Lobos e, mais tarde, Antônio Carlos Jobim, que reconheceram em Nazareth um modelo de equilíbrio entre tradição e modernidade. Embora concebida como Tango Brasileiro, Odeon tornou‑se, ao longo do século XX, um verdadeiro hino do choro moderno. É peça obrigatória em rodas de choro, recitais de violão e concertos pianísticos, funcionando como um divisor de águas para músicos que desejam compreender a síncope brasileira, a condução de vozes internas e a elegância do fraseado. Nota Metodológica: o Arranjo para Violão A presente análise baseia‑se na adaptação para violão solo. Naturalmente, há diferenças em relação ao original para piano — sobretudo no que diz respeito à condução de vozes e à disposição das tessituras. A tonalidade do tema original da obra é Dó sustenido menor (C#m) e dos episódios Mi Maior (E). No violão, entretanto, é prática corrente transpor o tema da peça para Mi menor (Em) e os episódios Sol Maior (G), favorecendo o uso de cordas soltas, maior ressonância natural do instrumento e soluções idiomáticas mais eficazes. Essa escolha não compromete a estrutura nem a lógica harmônica da obra, apenas recontextualiza sua escrita. Andamento: Elegância versus Velocidade Um dos equívocos mais recorrentes nas interpretações contemporâneas de Odeon e outras obras de Nazareth é a aceleração excessiva do andamento, que descaracteriza o caráter elegante e dançante da peça. Segundo relatos de Eurydice de Nazareth, filha do compositor, Ernesto Nazareth era categórico quanto a esse aspecto: “Papai não admitia que tocassem suas músicas em andamento de polca. Ele dizia que eram tangos brasileiros e deviam ser tocados com a elegância de uma caminhada, nunca correndo.”(NAZARETH apud HORTA, 2016). O andamento ideal situa‑se aproximadamente entre 80 e 92 BPM, permitindo que as tensões harmônicas, as síncopes e a condução do baixo sejam percebidas com clareza e naturalidade. Estrutura Formal: o Rondó e o Choro Odeon adota a clássica forma de rondó, estruturada como: A – B – A – C – A Essa forma, herdada da tradição europeia, tornou‑se também a espinha dorsal do choro brasileiro, pois permite: Estrutura de ODEON: Tema A Episódio B Episódio C Parte A – O Tema Principal (Mi menor) Uma das características mais originais de Odeon é o fato de o tema principal estar no baixo, enquanto as vozes superiores cumprem função harmônica. Morfologia Análise Harmônica – Frase a Acorde Grau / Função Comentário G III Entrada pelo relativo maior, criando brilho inicial B7/F# V6 Dominante com baixo na 5ª, condução descendente Em I Estabelecimento da tônica E7/D V7/iv Dominante secundária com baixo cromático Am/C iv6 Subdominante invertida, cor típica de Nazareth E7/B V/iv Acorde de passagem Am Iv Repouso subdominante Am/C iv6 Preparação para a cadência Cadência da Seção A (Frase a’) A segunda metade da seção A apresenta uma cadência composta, intensificando progressivamente a tensão: A frase a’ exerce função claramente cadencial, sendo responsável por concluir a primeira parte da seção. Trata-se de uma cadência composta, na qual subdominante, predominante e dominante são prolongadas e intensificadas antes da resolução final. Acorde Grau / Função Comentário Técnico Am IVm Estabiliza a função de subdominante. Am/G IVm7 (baixo na 7ª) Movimento descendente no baixo (Lá → Sol), reforçando a condução linear. F#m7(b5) iiø7 (Predominante) Acorde meio-diminuto característico do modo menor, preparando a dominante. Am/E IVm/5ª (ou Sub. de V) Antecipa a nota Mi no baixo para manter a ideia melódica antes da chegada do B7. B7/D# V7 Dominante com a terça no baixo (sensível), ponto de maior tensão estrutural. B7(b13) V7(b13) A presença da b13 (nota Sol) cria uma dissonância expressiva que intensifica o gesto resolutivo. Em Im Resolução conclusiva na tônica (cadência autêntica). Síntese das Funções Harmônicas da Parte A Frase a’’ – Expansão Cadencial Final Acorde Grau / Função Comentário F#7(b5) V7/V Dominante secundária que prepara a chegada do B7. B5+/F# V+ / 5ª Dominante com baixo na quinta, enfatizando a condução de vozes. B7(#5) V7(#5) Intensificação máxima da tensão dominante. Em9 / Em Im

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